26 de abril de 2019

Os dois lados da mesma moeda – Será?

Menos sedução, mais exposição - da alma, da verdade, do amor

Temos uma moeda. De um lado está escrito: “manipulação”. Desta, todos nós quando nos damos conta, saímos correndo, com medo de sermos pegos por este monstro cruel. Ele faz vítimas ingênuas, mas também entre elas, existem aquelas arrogantes, que acreditam poder lidar com ela sem se perder ou contaminar.

Em contrapartida, o outro lado, já mais sagaz,  pega você pelo pé, elogia, se apresenta sempre cheiroso e belo. Ele tem  a palavra que encaixa perfeitamente aos seus ouvidos na boca, prontinha para você…… Ah é aí que o bicho pega, aliás, o monstro chamado sedução.

Antonio, quando conheceu Rogério, era um homem de gosto simples. Assistia muita televisão, acompanhava todas as novelas, jogava seu futebolzinho na praia com os amigos aos domingos, onde chegava, se não de carona, de ônibus lotado. Um homem de gosto simples, para quem, tudo estava bom.

Ele trabalhava como chefe do setor de compras de uma empresa multinacional , cargo ao qual chegou por méritos próprios. Trabalhava muito, fazia hora extra e era um chefe camarada. Sim, para todos aqueles que ele sentia que não ofereceriam risco ao seu cargo. Nem conto o monstrinho que ele se tornava quando apenas desconfiava que havia essa possibilidade. Mas de um modo geral, todos gostavam dele.

Gostava de ir para o trabalho ouvindo suas músicas prediletas em um aparelho de mp3 naquela época. Seu gosto musical ia do samba ao pagode, fazendo umas escalas no sertanejo e no funk.

Quando conheceu Rogério num dos intervalos da pelada, estavam ambos tomando uma água de coco no quiosque da praia, onde trocaram algumas impressões sobre o sol, o calor e as ondas do mar – Rogério curtia um surf- e seguiram caminho.

Rogério foi em direção às ondas e Antonio sentou-se debaixo de uma barraca com os amigos e falaram sobre futebol, mulheres e programas de tv. Ele ali se sentia em casa.

Nas semanas seguintes, como por coincidência, se esbarraram várias vezes, e uma inevitável amizade se estabeleceu. A tal ponto que Rogério convidou Antonio para almoçar em  sua casa. Lá chegando, foi apresentado ao irmão mais velho de Rogério, que aliás, era a antipatia em pessoa. Mas Antonio muito bem educado, relevou e logo após o irmão sair , ficaram os dois recém amigos a sós na sala.

Estava tocando uma playlist de excelente bom gosto e elegância. Era dominada por Billie Holiday (foto), Ella Fitzgerald, Gershwin, Chet Baker, passando por Tom Jobim e pulava para Rita Lee, terminando com os Doces Bárbaros, para alívio de Antônio, pois enfim identificava algo com o que tinha alguma familiaridade, que no caso era a língua portuguesa, pois os artistas brasileiros ali não eram alvo de seu interesse,  ou melhor, não eram “sua praia”.

Rogério perguntou o que achava das músicas, e para ser educado, respondeu que gostava muito, arriscando repetir uma frase ou outra, citada nas músicas em português, claro. Uma delas foi um ponto de ligação entre ambos, que veio a render boas conversas: ele comentou sobre uma música cantada pelos Doces Bárbaros. Tratava -se de “Atiraste uma pedra”. A música ao que parecia, veio sob encomenda.

Antonio falou que ela o fazia lembrar-se de seu pai, que costumava cantá-la em voz alta e emocionada toda vez que errava a dose da cerveja. Ele esquecia as contas das garrafas  e pronto… ficava mais sensível e falava o coração. Só assim o velho Antenor mostrava sua sensibilidade. Contou que o fazia cantar juntos e o ensinou lições de lealdade através da música. O Sr. Antenor  conversava, ensinava e educava os filhos através de músicas e poesia. E cantou tudinho, enfatizando os pontos valorizados pelo pai.

“…conseguiste magoar quem das mágoas te livrou;
Atiraste uma pedra com as mãos que essa boca tantas vezes beijou;
Quebraste o telhado que nas noites de frio te servia de abrigo
Perdeste um amigo que teus erros não viu
E o teu pranto enxugou
Mas acima de tudo atiraste uma pedra turvando essa água,
Essa água que um dia, por estranha ironia, tua sede matou.” (David Nasser/Herivelto Martins)

E seu pai falava que a deslealdade era uma grande ingratidão e descaso com o amor dedicado a uma pessoa. Comentava que o “telhado” citado na poesia seria uma alusão aos valores de consciência que um indivíduo tem. E que quando se quebra, este fica exposto às próprias intempéries criadas ou aceitas por ele mesmo.

Foi um momento em que Antonio mostrou o homem sensível que era, conquistando de uma vez por todas a admiração e o encantamento de Rogério.
Antonio logo após essa conversa sentiu pela primeira vez a forte conexão que viria a estabelecer com Rogério. Falou que precisava pedir desculpas, pois começou tentando seduzí-lo com uma mentira, disfarçando e se pegando no ponto que lhe era familiar. Disse que não conhecia Ella Fitzgerald, nem tampouco os outros da trilha sonora – é…, naquele tempo não se falava playlist -, mas que foi salvo pelos Doces Bárbaros e a lembrança do pai.
Sentiu que tentar parecer o que não é, apenas para agradar alguém é uma traição contra si mesmo e uma deslealdade com o outro.

Falou de quantas vezes havia feito isso na Vida, obtendo sempre o mesmo resultado. No começo, quando conhecia alguém, agia de acordo com o que ele achava que iria agradar, conseguia o amigo ou namorado mas depois reclamava, pois percebia que havia criado uma armadilha para si mesmo e para o outro. Assim, com essa consciência  se mostrava como era na verdade. E o outro, a essa altura, já dentro do relacionamento de forma inteira, se sentia traído.
O resumo da história de Rodrigo e Antonio é o mesmo que o de muitas pessoas que passam pelos nossos atendimentos.

E isto nos fez concluir que sedução e manipulação têm apenas tonalidades diferentes. Para conquistar e ser conquistado, para estabelecermos relações verdadeiras, precisamos apenas ser nós mesmos, sem subterfúgios, pois se substituirmos a sedução versus o real encantamento pelo outro e além disso a tentativa de conquista pela determinação de conhecer a outra alma humana de verdade, saem de cena a sedução e a conquista e entram encantamento e admiração, obtendo-se assim um relacionamento emocionalmente seguro e confortável com lealdade entre as partes. Entramos no campo do Ser Humano.

Sim, são dois homens, hoje na faixa de seus cinquenta anos e trocados, maduros, unidos e leais um com o outro. Juntos há mais de trinta.
Na verdade, minto, não estou falando de dois homens, homossexuais, trans, bi ou qualquer outra letrinha, falo de duas almas humanas que admiro e respeito. Há 30 anos! Tanto que escrevo a pedido deles mesmos, sem esconder ou mudar os nomes. Lidamos com a alma humana e não com a “roupa que esta veste”;

Temos uma moeda… ela tem dois lados. Qual o valor dela? É relativo. Toda moeda, como esta que estamos falando, ainda que possa não parecer, é extremamente valiosa. Só precisamos saber quando devemos tirá-la do bolso; com quem usar e quais os motivos que nos levam a fazer isso. E, mais importante, devemos nos perguntar: precisamos dessa moeda?

Artigo escrito por Valéria Trigueiro

Valéria Trigueiro é perfumeterapeuta com experiência na elaboração de perfumes personalizados segundo o equilíbrio dos 4 Elementos. Seu trabalho define-se como "Aromaterapia e Espiritualidade.

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Valéria Trigueiro

Valéria Trigueiro é professora de inglês por formação e aromaterapeuta por vocação. Escolheu dentre todas as possibilidades que a Aromaterapia apresenta, elaborar perfumes personalizados como item de “cuidados pessoais”. Para tal utiliza diversas ferramentas de investigação energética e emocional, fazendo anamnese profunda e testes olfativos. Dentre tais ferramentas podem ser encontrados a Carta Natal do cliente, o estudo dos setênios ou a leitura de oráculos com abordagem alquímica. Todos os produtos são elaborados com ervas e óleos essenciais da melhor qualidade, sem quaisquer aditivos químicos.

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