27 de julho de 2020

A flor azul da Senhora Lilás

Em um salão muito bem arrumado à moda  antiga, com móveis centenários mostrando a tradição e elegância de seus antigos moradores, ouvia-se  várias mulheres conversando.
Entretanto, sentia- se uma tensão  contida no tom de suas vozes.
Aproximei-me ao bom  e velho estilo das “senhoras e senhoritas curiosas” que também já havia habitado aquele casarão.  Feio? Sim. Mas não  me contive. Não me arrependo. Valeu a pena. Pude ouvir:
Quem é a mãe da sua avó?” Rapidamente alguém responde: “a bisavó.” “E depois“, perguntou Mariana. A resposta veio fácil: “tataravó.”
Mas, Sancha que ouvia a conversa, discordou do alto de seus 8 anos de idade.
Que coisa mais chata! Para quê ficar enrolando a língua e pensando tanto se podemos usar a lógica?”
“Depois da bisavó,  vem a trisavó. Segue-se numa linha reta regressiva na história e chegamos à tetravó, e depois é só seguir os numerais de ordem – ordinais  – até  chegarmos na decavó.”
As pessoas que estavam na sala entreolharam-se admiradas,  a criança percebeu  e fez um olhar desafiador. Sabe como são adultos competitivos? Pois é, ali mesmo tinha um – uma tia chata metida a esperta que perguntou: Ué, Sancha… e acaba na décima geração?”
Com um olhar de enfado ela respondeu: “vocês não  conseguem nem falar direito depois da terceira, e pior, nada sabem de suas  próprias avós  e estão aí nesse bla bla bla  inútil!”
A tia mais  legal, madrinha da menina interveio.  “Tens toda razão.  Não  sabemos mesmo muita coisa e esta é a razão de muitos problemas por aqui.  Não conhecemos nossa própria história, por isso temos tanto problema em conhecer a nós mesmas.
O assunto ficou denso. As crianças sentadas no chão com seus celulares nas mãos,  os adultos com   suas taças de espumante de um lado e celulares de outro, discutiam uma possível herança de uma bisavó rica recém-falecida, que aliás, desconfio, nem nunca viram.
Era uma reunião de primas, irmãs, tias, mães… só mulheres, já que os homens, quando tratava-se dos assuntos daquele matriarcado,  preferiam ficar de fora. “Elas brigam, xingam, mas termina tudo em lágrimas,  risos e abraços”. Um deles discordou, argumentando: “Não  quando envolve dinheiro “.
Júlia, a tia mais séria de todas, cética, organizada e chata entrou no assunto argumentando sobre “essa tal” necessidade de conhecer a história familiar, questionando se no caso de não  ser possível, se a pessoa nunca conseguiria chegar a um bom nível de autoconhecimento. Falou em tom irritadiço achando tudo uma bobagem.  E ainda teve aquela clássica frase… Credo…! Mas teve… “No meu tempo não tinha nada disso”.  Queria ir direto ao assunto,  pois já tinha planos para aquele dinheiro que nem sabia quanto ou mesmo se teria direito a ele.
Claro,  à essa altura,  estavam todas falando ao mesmo tempo, ninguém entendia mais nada, quando a mãe  de Sancha levantou-se. Isto foi o suficiente para  todas calarem e prestarem atenção  nela. Ela fazia parte da família, por ser casada com o irmão de uma delas. Aqui pra nos, notei que muitas questionavam sua presença, alegando não ter o mesmo sangue, portanto não ter direito a na da!
Assim,  fingindo não notar o clima, ela aproveitou para pedir atenção de todas. Chamou a prima mais nova, a mais velha e a do meio, todas filhas de tia Celi e falou: “queridas, autoconhecimento vem com questionamento,  tempo, dedicação, estudo, paciência e  humildade. Posso afirmar, por experiência,  que tão  logo tive conhecimento da vida de minha mãe,  avó, bi e trisavó,  muita coisa fez sentido para mim e tirei um peso que carregava.  Acreditava   ser meu, mas para minha surpresa  fazia parte  de minha história familiar. O que não sabemos,  fica na sombra e literalmente nos pode “assombrar “como fantasmas escondidos debaixo da cama.”
Descobri que muitos comportamentos que eu tinha e até palavras que repetia,  não eram minhas, mas estavam no  inconsciente de nossa família.  E perguntou: “Quem é a bisavó de vocês?”
Umas falavam um nome, outras outro nome, misturavam fatos… uma confusão generalizada…! Repetiu: “quem é sua  bisavó?”
Laurita, prima da mesma idade de Sancha e sua melhor amiga, muito séria, responde: “sou eu!”
Umas riram, outras a acharam mal educada, até que a mãe  da menina abaixou-se até  ela e pediu que explicasse. Não  esperava muito, mas respeitava a palavra das crianças.  Dizia que poderiam ser recados dos anjos.
Algumas das mulheres, que até então estavam achando as crianças engraçadinhas, franziram o nariz,  sugerindo que fossem brincar no jardim.
Ela explicou: “Sou eu sim, sou parte física dessa bisavó, pois ela gerou minha avó,  que por sua vez gerou minha mãe e eu estou aqui. O mesmo aconteceu com a educação e costumes”.
“Minha  hepta, hexa, penta, tetra, tri, bi até a vovó, chegando na minha mãe. Claro,  existe evolução,  personalidade,  escolhas, somos indivíduos,  mas temos muito delas e por isso não devemos brigar, pois estaríamos brigando com nossas ancestrais e eu me sentiria brigando comigo mesma.” (Ela adorava falar os numerais ordinais assim, porque sentia que irritava as tias mais chatas).
Vovó Anna, a mais velha ali  presente, agradeceu a menina e quis saber como ela sabia aquilo tudo com apenas 8 anos de idade.
Laurita levantou-se do chão,  aconchegou-se no colo de Vovó Anna e disse: “uma avó me diz em sonhos que tenho desde meus três  anos de idade. Ela me ensina muita coisa. Ela tem o mesmo nome que o seu – Vovó Anna, mas ela gosta que eu a chame de Vovó Nanã. Ela mora num lago escuro de águas doces chamado pântano,  ela gosta de morar lá,  vai onde quer,  mas gosta de seu lar.  Ela diz que cultiva flores como ela – princípio,  meio e fim – raízes fortes e profundas alimentam o caule nas águas turvas do pântano  e ao se abrirem, se alimentam de sol. Tem muita força, nasce e renasce, demonstrando o ciclo perfeito da Vida. Base na terra do fundo do pântano, corpo nas águas no meio e a cabeça na luz do sol. Vovó me conta que é uma flor de muita Alquimia.”
Caminhou até sua bolsinha e dalí puxou uma flor que nunca murchava que ganhou num sonho aos três anos de idade. Contou que ao receber a flor, recebeu também instruções de quando e como usá-la.  Disse-me que apesar de criança,  eu teria responsabilidade ao usar. Engraçado que eu entendi tudo, até as palavras que até então não conhecia. Me foi dada por Vovó Nanã.
A menina  apertou a flor em suas mãos, colocando-as postas diante do coração,  fechou os olhos  e um aroma de flor tomou conta do ambiente. Todas as presentes acalmaram, relaxaram a pose e seus corpos sempre tensos. Algumas  choraram, outras até dormiram. Não  se sabe quantos minutos, quem sabe horas, se passaram.
Vovó Anna foi quem tomou a palavra desta vez. -“filhas, como estão?”
Todas notaram que a flor permanecia mais viva e brilhante nas mãos da menina.
Uma a uma foi narrando suas sensações,  impressões e sentimentos. É como se muito tempo tivesse se passado. O ambiente era de paz e agradeceram as crianças,  que na verdade, foram elas que comandaram tudo ali. Pediram que elas falassem.
Laurita guardou sua flor de lotus mágica e perguntou o que queriam fazer com relação àquela reunião por uma herança de alguém a quem nem conheciam o nome, a história,  seus desejos e dores para ter deixado tal patrimônio para um bando de mulheres brigarem por ele.
Decidiram de comum acordo receberem, fosse em nome de quem fosse, que transformariam tudo em um grande sítio onde haveria departamentos de cura de cada assunto da vida. Teria o Departamento Eu e o Departamento Você, que formaria o departamento Nós, teria o da casa, da família,  da cura, do mundo,  tudo como uma grande mandala astrológica- e nessa forma circular seria construído.  Cada uma delas teria uma função na Casa e seus irmãos,  maridos, filhos também.
Assim, com tudo planejado em alguns minutos, decidiram o nome do sítio. Alguém sugeriu flor de lotus,  mas  Sancha  pediu a palavra. Sugeriu  vetiver por várias razões, uma delas era a necessidade de antes fazerem o caminho da  flor de lotus – aprofundar na terra suas sementes, controlar a temperatura de seus humores,  tendo força para administrar, respeitar  e amar as próprias emoções até conquistarem a alegria de verem e serem alimentadas pela luz do sol. Desta forma estariam aptas a encantar e curar a Humanidade.
Só neste momento os homens puderam entrar para saber das decisões ali tomadas e todos celebrarem juntos.
 E mais do que isto, poderiam finalmente  responder a pergunta do início da reunião.
Quem  é sua bisavó?
Ninguém ainda era capaz de ver o que Laurita e Sancha estavam vendo:  uma chuva de pétalas da flor de lotus azul em miniatura iluminada por uma luz lilás em forma feminina, sorridente, imaginando o dia em que ouviria de todas elas a resposta esperada: “Sou eu!” Era aguardar – tinha todo o tempo do mundo.
  •  Flor de Lotus – flor alquímica – pois ela mesma se transforma – do lodo à luz do sol, o surgimento em forma de uma flor de rara beleza. Seu óleo essencial (absoluto) ajuda a elevar a consciência propiciando insights, clareza de pensamento.
  • Vetiver –   energia  nutridora, úmida,  fresca e doce –  Elemento: Terra. Acalma e levanta o ânimo. Contra sentimento de solidão. Amparo, abraço de uma avó amorosa.
Artigo escrito por Valéria Trigueiro

Valéria Trigueiro é perfumeterapeuta com experiência na elaboração de perfumes personalizados segundo o equilíbrio dos 4 Elementos. Seu trabalho define-se como "Aromaterapia e Espiritualidade.

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Valéria Trigueiro

Valéria Trigueiro é professora de inglês por formação e aromaterapeuta por vocação. Escolheu dentre todas as possibilidades que a Aromaterapia apresenta, elaborar perfumes personalizados como item de “cuidados pessoais”. Para tal utiliza diversas ferramentas de investigação energética e emocional, fazendo anamnese profunda e testes olfativos. Dentre tais ferramentas podem ser encontrados a Carta Natal do cliente, o estudo dos setênios ou a leitura de oráculos com abordagem alquímica. Todos os produtos são elaborados com ervas e óleos essenciais da melhor qualidade, sem quaisquer aditivos químicos.

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