10 de outubro de 2018

Seu gosto olfativo é seu mesmo ou seria alguma espécie de herança?

Memória pessoal, cultural ou genética? Abordamos o assunto contando um caso. A conclusão é sua.

Pois é… aliás, descobri que geralmente começo a escrever com um “pois é…”. Pode parecer estranho, e é, acabo de me dar conta da razão disso. Converso o tempo todo na minha cabeça comigo mesma e às vezes conto episódios e troco idéias com as pessoas, mesmo elas estando lá longe na casa delas sem terem a menor idéia de que estão me respondendo, inclusive.

Desta vez estou respondendo por escrito o que falei para uma pessoa que me telefonou para marcar uma consulta com o tarot alquímico. E o assunto, claro, foi parar nos perfumes. Está na alma e não tem jeito.

Ela me contou algo muito curioso. Falou que desde que engravidou tomou horror ao aroma de café. É…, café…! Enjoava todas as vezes que sentia o aroma ou a simples menção ao café. Claro, virou um suplício, já que é um cheiro que faz parte do cotidiano brasileiro desde… ih… talvez seja aí que começa a nossa estória.

Enfim, o bebê nasceu há 28 anos e ela retomou o uso do café quase que normalmente, quase, porque teve que parar por causa dele. Adquiriu “raiva do café.” Claro que eu ri, mas quando vi que era sério o assunto, fiquei até com vergonha.

Não era uma consulta, mas quem passou a “se consultar” fui eu. Fiz tanta pergunta que aos poucos fomos descobrindo “coisas”. Ela lembrou que seu bebê sofria de cólicas atrozes e só passou quando o médico a proibiu de fazer uso de refrigerantes e de café enquanto estivesse amamentando. Deu certo!

Hoje o rapaz trabalha fora, estuda, namora e faz tudo o que alguém pode fazer, exceto…, claro, tomar café. E, certamente é um fator limitante para ele, pois guarda uma frustração imensa quando alguém o chama para tomar o famoso cafezinho,  se sente obrigado a dizer que detesta café. Tem vergonha.

Durante a conversa fiquei sabendo que esse era apenas o início da história curiosa de Jesuína. Ela contou isso tudo para depois dizer que a segunda filha também “sofre do mesmo mal”. Entretanto, ela conseguiu superar por teimosia – toma café assim mesmo apesar de não gostar do aroma do café cru.

A partir do momento em que a filha ingere café e não tem sintoma algum de alergia ao produto, limitando-se apenas ao horror que compartilha com o irmão ao aroma, já me ocorreu a hipótese de ser alguma memória impressa em ambos, nada tendo a ver com a parte física – genética.

E lá vai conversa e descubro que o pai das crianças é de uma região cafeeira da Bahia. Ele não tem nenhum problema quanto ao aroma ou sabor do produto.

Ela querendo saber do tarot e eu quase gritando… “pegue um avião, venha agora, não vou nem cobrar nada, mas me conte essa história…!” Claro que me contive. Não é tanto assim…

Perguntei a ela se já tinha tentado descobrir algo sobre o assunto com os filhos. Disse que pode perceber algo curioso quanto ao que sentiam verdadeiramente. O rapaz, com 28 anos hoje diz que notou que algumas vezes sentiu irritação. Acha o cheiro desagradável e lhe dá uma sensação ruim.

Quanto à filha, com 25 anos, diz que evoca algo triste, como se não tivesse mais nada para comer ou beber se não café, portanto remetia à escassez. Não costuma falar sobre isso, pois acha irracional e sem sentido algum.

Isto tudo para ver a importância que o assunto café tem nessa família, faz parte das conversas, investigações psicológicas, etc.

Falando em investigação, me manquei e voltei ao assunto tarot alquímico e ela mencionou um problema familiar por parte do marido, questões de terras, até que chegou em um ponto chave: herança de um avô escravo alforriado.

Bingo! Bingo nada, pode ser coincidência, mas que está bastante instigante a história de Jesuína está sim. Apenas inferências, pensamentos e reflexões. É assim que eu estudo.

Pensei em memória congênita herdada dos avós. No caso da mãe, que até engravidar, gostava de café, por ter passado por tanto enjoo e sofrimento dos filhos por causa do produto, acabou por adquirir uma memória que não era sua, mas adquirida por emoções negativas ligadas ao aroma.

Tudo isso me fez lembrar de meu pavor ao aroma de um determinado produto tradicional que se usava muito antigamente com aroma de rosas como desodorante. Desde criança detestava sentir aquele cheiro.

A aromaterapia me trouxe de volta, digamos assim, só para argumentar, esse “problema”, já que passei a vida evitando produtos à base de rosas. Imagine uma aromaterapeuta com horror a cheiro de rosas!

Ok,  fui exercitando, criando novas memórias, procurando em mim uma razão para isto, enquanto criava situações alegres e tascava rosa para poder me acostumar.

Sim, poderia apenas ser um “não gostar” e pronto. Ninguém é obrigado a gostar de todos os aromas, credo… se fosse assim, estaríamos roubados…! Bem…, continuando…, a rosa remete a um temperamento mais doce, mais profundo e sentimental e eu poderia querer negar isso e ser a “fortona”, vender um peixe de que “nada me abala, eu sou é… bem…, super resolvida, ok?” Eu me convenci.

Até que um dia cuidando de minha mãe, com Mal de Alzheimer, uma cuidadora sugeriu que eu comprasse o tal produto para limpar a maquiagem dela, pois era algo quase natural como os que eu fazia. Nesse dia uma prima mais velha estava lá visitando e falou assim: “Nem pensar! Minha tia odeia esse cheiro desde que ela se separou do marido há 50 anos atrás!” Era algo sobre minha mãe que eu não sabia. Claro, nunca vi esse produto em casa.

Bem, memória adquirida, sem dúvidas. É o que poderíamos chamar na Alquimia de memória do DNA volátil, ou seja, do meio ambiente em que habitamos.

Com o passar do tempo, vim a descobrir que eu realmente não gosto muito do aroma do óleo essencial de rosas (a branca), mas sou capaz de usar em sinergia sem o menor problema. Faço uso do óleo essencial puro se necessário for, sem carinha feia ou nariz franzido. Pode ter sido efeito dos exercícios que fiz, da descoberta da origem do meu horror ao aroma, mas fato é que descobri algo interessante. Pode haver mais uma hipótese.

Algo que estou pensando aqui, delírio, descoberta ou o que seja, mas acho que descobri mais um tipo de memória – a solidária.

Nota: Bem… é claro que agora que vocês chegaram até aqui vou confessar algo: sou um pouco pior que teimosa. O que acabo de contar foi adaptado, pois após o telefonema quando eu soube do horror ao café nutrido pelos filhos, adquirido pela mãe, etc. pedi que ela em troca do jogo – afinal era uma curiosidade (adoraria dizer pesquisa, mas não me levo tão a sério assim) minha – pesquisasse junto aos filhos o que sentiam, quais os pensamentos e sentimentos que tinham com relação ao café.

Eles toparam depois de alguma resistência e o resultado é este que apresento a vocês. Entre a primeira ligação, o primeiro jogo e a conclusão aqui apresentada, passaram-se quatro meses.

Créditos fotos, respectivamente:  café:Pablo Merchán Montes; mulher by Sam Burriss ; faro: by Tadeusz Lakota mulher/flor  byAnnie Spratt

Artigo escrito por Valéria Trigueiro

Valéria Trigueiro é perfumeterapeuta com experiência na elaboração de perfumes personalizados segundo o equilíbrio dos 4 Elementos. Seu trabalho define-se como "Aromaterapia e Espiritualidade.

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Valéria Trigueiro

Valéria Trigueiro é professora de inglês por formação e aromaterapeuta por vocação. Escolheu dentre todas as possibilidades que a Aromaterapia apresenta, elaborar perfumes personalizados como item de “cuidados pessoais”. Para tal utiliza diversas ferramentas de investigação energética e emocional, fazendo anamnese profunda e testes olfativos. Dentre tais ferramentas podem ser encontrados a Carta Natal do cliente, o estudo dos setênios ou a leitura de oráculos com abordagem alquímica. Todos os produtos são elaborados com ervas e óleos essenciais da melhor qualidade, sem quaisquer aditivos químicos.

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